1. UM MEIO PARA O COMEÇO

O presente artigo gravita no método de investigação da interpretação de imagens, analisando o processo de produção visual. Na análise das imagens, procura-se significar as subjetividades, o flagrante das sensibilidades, as profundidades nos relacionamentos e os envolvimentos nas discussões dos temas contemporâneos.

  1. O ENCONTRO DE SI: SABERES IMAGÉTICOS

Segundo Toffler (1998, p.22), as mudanças na sociedade, o “choque do futuro”, atinge diretamente a vida de cada indivíduo. “A maior arte do que realmente nos aflige como incompreensível afligiria muito menos se encarássemos com novos olhos o ritmo crescente de mudanças que faz a realidade às vezes parecer um caleidoscópio enlouquecido”.

  • Imagens: produção e fruição

O olhar sobre as imagens que nos cercam pode evoluir conceitualmente de acordo com o desenvolvimento estético, relacionada à formação cultural. De acordo com Rossi (2009, p.18), ler não é apenas decodificar. “Ler é fazer implicitamente perguntas ao texto”. Porém, na educação escolar brasileira, ainda há poucas investigações mergulhadas na compreensão estética.

Em um mundo visual a educação precisa ouvir os estudantes, para entender o que percebem e poder ensina-los, pois o sujeito em posse de habilidades do pensamento formal, de cognição, assume um papel ativo na produção da construção de sentidos nas imagens.

  • Experiências Estéticas

Na arena transitória do século XXI, determinada pelos padrões de consumo e da competividade, temos em maioria uma visão publicística da arte, voltada para o consumo. Para Rossi (2009, p.53), “Ao erro de percepção acrescenta-se o erro intelectual”. Os pequenos são reféns da mídia que ecoa desejos inventados, deslumbrados no consumo de produtos comerciais sem qualidade estética. [1]Toda experiência estética, mesmo que racional é também intuitiva, não se revela no plano verbal, mas através de formas expressivas na criação artística[2].

Sendo a sensibilidade uma característica humana, Vigotski (1999, p. 325) já apontava o ato artístico como um movimento criador. “Ensinar o ato criador da arte é impossível; entretanto, isto não significa, em absoluto, que o educador não pode contribuir para sua formação e manifestação”.

Como observa Barbosa (2003), a arte desperta as possibilidades potenciais de percepção e imaginação, em apreender o meio, aguçando a capacidade crítica em analisar e desenvolver a criatividade de maneira transformadora na reflexão social e cultural[3]. De acordo com Delory-Moberger (2008) “Vivemos em espaços e tempos simbólicos, cercados de simbologias. A tarefa primeira do humano é, pois, ler e interpretar o mundo”.

Nas produções A Ponte Ateliê Educativo, as crianças usam o corpo, performances e narrativas para contar sua história, como produção de si. Por Delory-Moberger (2008, p. 96), como “matéria movente, transitória, viva, que se recompõe sempre no momento em que é enunciada”. O que se evidencia são como essas formas de produção visual se desmancharam no interior dessas crianças, lançando-os em novos processos, para o começo de outra teia de representações, relações e significados entre a relação da vida de criança, versus as imagensno seu cotidiano, como forma de se expressar, tomar forma, mostrar sua existência, busca-se um olhar.

A análise imagética procura captar as visões de mundo e os rituais dos sujeitos. São os artefatos culturais que podem fornecer pistas sobre as condições que os jovens produzem referenciando a si, nessa experiência mediada. Santana (2010) observa a necessidade de compreender os possíveis e os limites desses artefatos digitais na história da educação, enquanto Macedo (2010) significa a cultura visual na pesquisa, vista do ponto da percepção mediante fragmentos imagéticos na rede de relações na escola.

Para Fusari & Ferraz (1993, p.76): “Conhecer as imagens que nos rodeiam significa também alargar as possibilidades de contato com a realidade; significa ver mais e perceber mais”. Ver ultrapassa o sentido sensorial, que pode caracterizar-se pela percepção visual.

3.  A Produção em Si: Imagens

Para documentar a realidade que estamos pesquisando, a fim de buscar valores e estilos de vida das crianças na produção de saberes, por meio de uma situação de ensino-aprendizagem no contraturno, faremos uso dos relatórios de transcrição de análise imagética dos os cenários, personagens, partindo da sinopse das obras e dos elementos cenográficos, indumentárias predominantes, principais fotografias e locais de filmagens na produção dos estudantes A Ponte Ateliê Educativo. Significa eleger as técnicas projetivas como princípio fundamental na análise das impressões captadas, utilizando as produções imagéticas dos envolvidos, interpretadas por eles mesmos.

Ampliando a visão do acerca das potencialidades e possibilidades de atuação transformadora sobre o meio, através da mobilização de códigos e experiências culturais, tendo em vista o interesse e o envolvimento interativo das crianças com a utilização das NTCIs (Novas tecnologias de comunicação e informação), como ferramenta para práticas pedagógicas significativas.

Para Diógenes (2013), ao lançar-se no ciberespaço ocupando um perfil digital emergem possibilidades de afeto em conexões sem fronteiras, navegando por provocações sociais, culturais, estéticas e políticas, significando que as mediações entre os ambientes online e off-line, engendram trocas das relações que escapam da delimitação do espaço e do tempo.

O uso da internet através das redes sociais e blogs representam os modos de comunicação entre a maioria das crianças e jovens. Hoje, podemos citar os canais do You Tube. Nessa perspectiva, os profissionais da educação necessitam de resiliência na transitoriedade, atuando atualizados sobre as transformações na sociedade, sobretudo, aquelas que afetam direta ou indiretamente a escola.

A internet está possibilitando novas culturas da participação nas trocas comunicacionais, superando as comunicações unilaterais de conteúdo midiático dos canais de televisão. É uma ferramenta que possibilita a visualização e um compartilhamento maior de informações e pode se tornar um instrumento de reforço para a educação, na inserção de projetos educativos.

Saderlich (2006) lança a problemática da atual sociedade contemporânea, engolida pelo excesso de imagens, apontando o impacto desse fenômeno na prática pedagógica. No mundo civilizado as emoções e as experiências são separadas da razão e do pensamento. O papel homogeneizante na vendagem de imagens reflete na educação.

  1. Considerações: Imagem e Cultura Digital

Vivemos em um mundo conectado, cercado de signos e em um tempo transitório, de lugares que se deslocam em rede de fluxos interligados no espaço. Na atualidade a interatividade digital apresenta um potencial de experiências educativas, tanto quanto na relação presencial.

Considerando que a vida social está se transformando radicalmente, através das novas tecnologias e das novas maneiras de se ver e de se perceber o mundo, as informações on-linedominam o cenário social. O “mundo virtual” gera reais possibilidades de interações. O ciberespaço, com computadores e telefones conectados nas ferramentas de mídia social, está interligado ao mundo físico.

As tecnologias digitais se colocam como via para construção e ampliação da ativação do sentido de pertencimento, considerando que as ações construtivas da arte e tecnologias no campo da cultura visual congregam dimensões do simbólico e do imaginário, repleto de significados, em códigos e subjetividades, tomando a expressão de pensamentos e sentimentos muitas vezes ocultados e desvalorizados no campo das experiências educativas.

A Ponte Ateliê Educativo, significa as crianças em suas diferentes percepções em relação à memória de suas histórias, tecendo saberes e práticas vivenciadas e partilhadas no universo digital das redes sociais. Aponta os sentimentos de pertença, traduzido na pluralidade de signos da cultura visual, recriados através do canal youtube, no estímulo à imaginação e criação.

Busca-se compreender que saberes são produzidos a partir das produções imagéticas realizadas pelas crianças que utilizam esses canais, bem como, através da inserção da produção audiovisual, estimulada pelo projeto de artes visuais no contraturno.

A imagem gravita no prisma do pensamento fascina, mas não apenas no campo do conhecimento, podendo seduzir e enganar o observador desatento. É preciso rever tanto a noção de produção quanto àquela de apreciação. É fundamental levar para a escola o mundo da cultura visual.

Nessa observação, precisamos nos posicionar com uma nova atitude frente às mudanças na atualidade e acesso aos recursos tecnológicos, na avaliação do papel do futuro. Com a internet, a fotografia e os recursos de edição, as imagens digitais situam-se cada vez mais representativas no contexto educacional.

A verdadeira racionalidade está em questionar uma sociedade acelerada, estruturada em torno do bombardeio constante de imagens, produtos e mensagens, com tendência ao consumismo exacerbado e racionalização. Conforme Barbier (2002), uma pessoa só existe em interação pela existência de um corpo, de uma imaginação, de uma razão, de uma afetividade.

Desse modo, para Morin (2000, p. 20) “Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos”.Em uma civilização marcada pela dimensão racional, dos saberes objetivos, distanciando a razão da emoção, fica fácil a imagem persuadir, enganar e dominar.

Bibliografia

BARBIER, R.  A pesquisa-ação. Brasília: Plano Editora, 2002.

BARBOSA, Ana Mae. Recorte e coragem:influências de John Dewey no ensino da arte no Brasil. São Paulo: Cortez, 1982.

__________, Ana Mae. (Org.) Inquietações no Ensino da Arte. São Paulo: Cortez, 2003.

BRICHTA, Simone. Juventudes em Diálogo: Práticas Educativas Digitais e Tessituras Imagéticas.Dissertação de mestrado. Fortaleza: UFC, 2015.

DELORY-MOMBERGER, Christine. Biografia e Educação: figuras do indivíduo projeto. Natal: EDUFRN; São Paulo: Paulus, 2008.

DIÓGENES, Glória. Antropologizando: Arte Urbana e Graffiti em Lisboa. Enografias on-line e offline, 15 de abril,2013.Disponível: http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/04/etnografias-online-e-off-line-desvaos-e.html

FERRAZ T. C. H. M. & FUSARI R. F. M.Arte na Educação Escolar. São Paulo: Cortez. 1993.

LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva– por uma antropologia do ciberespaço: 6 ed. São Paulo: Edições Loyola, p. 54-210, 2010.

LINHARES, Ângela. O Tortuoso e Doce Caminho da Sensibilidade:Um Estudo sobre Arte e Educação. 2ª ed. Ijuí: Ed. Unijuí, 2003

MACEDO, Roberto Sidnei. Etnopesquisa Crítica, etnopesquisa – formação. 2ªed. Brasília: Líber Livro Editora, 82 -134, 2010.

MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

_____________. Os sete saberes necessários à educação do futuro.2ª. ed.  – São Paulo : Cortez ; Brasília, DF : UNESCO, p.14-35, 2000.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação.Petrópolis: Vozes, p.58, 2002.

_________________. Universos da arte. Edição comemorativa Fayga Ostrower. Rio deJaneiro: Elsevier, p. 04-55, 2004.

RIBEIRO, Diego Henrique Ribeiro. Grupo Cultural NUC: o dizer e o fazer de uma periferia.In: As mediações da cultura: arte, processo e cidadania. BARROS, José Marcio (Org.). Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2009.

ROSSI, Maria Helena Wagner.Imagens que Falam: leitura da arte na escola. Porto Alegre: Mediação, 2009.

SARDELICH, Maria Emília. Leitura de imagens e cultura visual: desenredando conceitos para prática educative. Educar, Curitiba, n.27, p.203 -219, 2006. Editora UFPR. Disponível em: http://www.iar.unicamp.br/lab/luz/ld/Linguagem%20Visual/leitura_de_imagens_e_cultura_visual.pdf

SANTANA, José Rogério, In.: ARAÚJO, J. E. et al(Org.),  Tempo, Espaço e Memória da Educação:Pressupostos Teóricos, Metodológicos e Seus Objetos de Estudo. Fortaleza: Edições UFC, p.612-625, 2010.

____________________, Capítulo IV – Metodologias e pedagogia de projetos. Em: Ymiracy N. De Souza POLAK; José Alves DINIZ; José Rogério SANTANA; Mauro Cavalcante PEQUENO; Pedro Ivo Polak JÚNIOR; Helena de Lima M. R. ARAÚJO. (Org.).  Dialogando Sobre Metodologia científica. 1 ed. Fortaleza: Edições UFC. 2011. V. 1, p. 99 -116.

TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 22-244, 1998.

Portal Em Diálogo http://www.emdialogo.uff.br/

Resolução CEB/CNE, nº 3 de 26/06/98. Disponível em http://www.mec.gov.br/

 

[1]ROSSI, Maria Helena Wagner.Imagens que Falam: leitura da arte na escola. Porto Alegre: Mediação, 2009.

[2]Fayga Ostrower (2004)

[3]Ribeiro (2009), a cultura indica o contexto em que estamos inseridos, tendo por base nossas referências, pelas quais interpretamos as representações nos diversos territórios da nossa vida cotidiana como a história, a religião, a educação, a arte e a tecnologia, compartilhadas por pessoas de um mesmo grupo nos mais diversos espaços sociais, de uma coletividade, global ou local, que interfere diretamente no cotidiano.

Simone Brichta

Simone Brichta

Diretora Pedagógica - A Ponte - Ateliê Educativo. Mestre em Educação Brasileira - UFC. Especialista em Metodologias do Ensino das Artes - UECE. Especialista em Gestão Escolar - UFC. Psicopedagoga - UFC. Pedagoga - PUCPR.

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