A Pontee – Ateliê Educativo:

 

no ar, brincar na cidade sorriso

 

Simone de Fátima Brichta[1]

 

Em um olhar mais alargado na forma de pensar o universo que nos cerca, a proposta pedagógica do projeto, gravita em aprendizagens de novos saberes, na fruição e promoção da imaginação.

A gestão pedagógica da instituição que atende crianças e juvenis entre 03 e 13 anos, foi considerada em 2015, referência como proposta educativa no fomento da Inovação e Criatividade, por reconhecimento do Ministério da Educação – MEC.

O projeto A Pontee –  Ateliê Educativo é realizado através de uma educação do olhar, que se traduz na ludicidade das práticas educativas.  Esta experiência estética, detêm-se em um movimento de captura dos elementos expostos nas trajetórias imagéticas, significando a participação dos educadores e educandos. Observa-se que na fruição e promoção da imaginação; o encontro de si e do outro. Para tanto, utiliza-se da analise de dados visuais, em fotografias e vídeos. Se omundo cultural interfere na forma de pensar e olhar o universo que nos cerca, nesse contexto, sendo a arte singular no universo da cultura, suas composições e interpretações transformam o meio e são transformadas, em uma recursividade importante para se laborar mudanças.

 

PALAVRAS-CHAVE: Imagens; Arte e Cultura.

 

 

Este trabalho n’A Pontee – Ateliê Educativo se desdobra em uma análise das práticas educativas culturais, com registros digitais, acerca das possibilidades mediadoras da arte[2]. Duarte Jr. (1991, p. 77), indica que “A arte permite um contato direto com os sentimentos de nossa e de outras culturas”. A Pontee[3]é um espaço particular, dedicado ao contraturno escolar. O estudo busca as imagens que fertilizam afetos, desdobram-se na infraestrutura humana e na concretização da elaboração de estratégias pedagógicas que traçam as perspectivas de um Projeto Pedagógico inovador e criativo. São ações para que se enalteçam práticas significativas de vivências em arte, cultura[4], tecnologias e meio ambiente.

O movimento analisado sob o prisma conceitual das práticas educativas estéticas[5]e éticas, desvela a produção tecida com as representações dos corpos, valores, cotidiano e imaginário dos educandos. Tomamos a arte como prática que coloca em cena as subjetividades de maneira mais profunda em uma produção de sentidos para as experiências. Culmina em um olhar sobre o cotidiano e imaginário dos educandos, como experimentação estimuladora.

No fomento da autonomia de indivíduos em uma gestão democrática no contraturno escolar, buscou-se entender a comunidade da Pontee, enquanto o cotidiano da instituição se revela na experiência desses personagens. Pretendeu-se assim um olhar alargado, com ênfase nas práticas educativas[6], que apontam aprendizagens significativas. Sobretudo, visando indicar as práticas sensíveis na construção de um projeto da A Pontee – Ateliê Educativo, em uma composição de modo lúdico e criativo, a interação da família e escola. Assim, como se ali, um menino do dedo-verde, chamado Tistu[7], fosse transformar tudo que toca com as mãos, todos os muros cinza em desenhos com cores.

A Pontee apresenta como meta complexa fomentar práticas educativas transformadoras, sensíveis, que possam instigar o olhar dos sentidos sensíveis.
Uma Educação do olhar. Aprendizagens significativas em teias de afetos, em criar com arte, valorizando o meio ambiente e a diversidade cultural, em histórias, que se revelam na imaginação. De acordo com Rossi (2009, p. 133), “Urge pensar em como as habilidades permitidas pelo desenvolvimento cognitivo podem ser incrementadas pela discussão estética na escola”. Assim, práticas criativas e imaginativas, na compreensão de signos e novas leituras.

 

Se arte é produção sensível, se é relação de sensibilidade com a existência e com experiências humanas capaz de gerar um conhecimento de natureza diverso daquele que a ciência propõe, é na valorização dessa sensibilidade, na tentativa de desenvolvê-la no mundo e para o mundo devolvê-la, que poderemos contribuir de forma inegável com um projeto educacional no qual o ensino de arte desempenhe um papel preponderante e não apenas participe como coadjuvante (BUORO, 2002, p.41).

 

Na Educação Infantil, conforme observa Rossi (2009), entre os dois e sete anos de idade, um desenho é bem elaborado por ter cinco dedos e ter unhas pintadas de vermelho. A criança vive em confusão entre a aparência e o que é real. De acordo com Rossi (2009, p. 83): “Devido à centração característica do pensamento pré-operacional, ela identifica os elementos um de cada vez, enumerando-os, sem relacioná-los entre si, não compreendendo o quadro como uma totalidade”. O desenho da criança não é arte na infância. A arte infantil é singular e diferente da arte do adulto. Para Vigotski (1999) a criança desenha esquemas e não fenômenos.  Na infância, com uma visão da relação interpretativa da imagem-mundo, não há percepção da autonomia do autor, a criança vê a imagem como uma realidade que pode ser representada. A criança descreve a imagem pela natureza que carrega a moral do tema, onde as cores são sempre referencia, sobretudo, uma imagem boa, traz as cores que são de seu gosto, como opção favorita.

A imagem-mundo de um segundo tipo, mostra um pensamento ingênuo, que demonstra uma visão que o artista deseja representar o que vivenciou, limitando a arte a uma relação do artista com o mundo exterior. Em um terceiro tipo da interpretação moral, a qualidade da obra é percebida como resultado das emoções transferidas para a obra. Não se fala do mundo que o artista contempla com os olhos, mas sobre o mundo que ele sente e expressa, interiormente. No final do ensino médio, a interpretação imagem-mundo de uma terceira fase, foi observada em estudantes.

Alguns estudantes com pensamento abstrato foram observados por Rossi (2009), ainda interpretando a arte como um retrato do mundo, não como uma autonomia do artista. Estudantes sem contato com a arte, utilizam o critério de julgamento da natureza que carrega a moral do tema. Manguel (2001, p. 32) observa: “Ser capaz (e ter disposição) de ler uma obra de arte é crucial”. Na adolescência, no final do Ensino Fundamental I e início do Ensino Fundamental II, é característica uma abordagem interpretativa intelectual.Na visão de uma interpretação da intencionalidade do artista, Rossi (2009, p.48) considera:“Quando estabelece esta relação, o aluno pensa que a responsabilidade pela definição do significado da definição da obra está, apenas, a cargo do artista. Ele sente-se como um decifrador dos significados que o artista teria colocado na obra”.

Quando o estudante atinge o caráter intelectual de leitura imagem-artista, difere-se da leitura imagem-mundo, onde o papel do artista era superficial. Rossi (2009, p. 47),observa que “A partir da quinta série começa a ser mais frequente o estabelecimento da relação imagem-artista”. Na leitura imagem- artista, não há uma consciência da interpretação, o observador pensa que toda a responsabilidade em atribuir significados a obra é papel do artista.

Os estudantes que são familiarizados com arte, quando estão no fim do ensino fundamental e início do ensino médio, começam a apreciar a expressividade do trabalho do artista. Na terceira fase, o estudante mostra uma passagem para uma habilidade cognitiva de reflexão sobre o próprio olhar. Na interpretação simbólica, o observador sai do papel de decifrar as intenções do artista e passa a valorizar a interpretação pela subjetividade, sobretudo, a consciência se transforma e se amplia. Quando o estudante usa substantivos abstratos em uma leitura da imagem, significa uma interpretação simbólica da mensagem. De acordo, com Rossi (2009, p.20),“Assim, pode-se dizer que, nos níveis mais elementares da leitura estética, há uma maior correlação com os fatores cognitivos. E, quando maior é o nível de complexidade e sofisticação da leitura, menos determinantes se mostram os fatores cognitivos”.

A consciência simbólica é possível na fase da adolescência, no entanto, poucos estudantes chegam ao desenvolvimento do pensamento abstrato. Tendemos a vislumbrar o que esperamos enxergar ou o que pensamos ter identificado. Vigotsky (1999) indica queem um nível mais arrojado de percepção, a interpretação artística possibilita tanto ao indivíduo, quanto à sociedade, a renovação valorativa do universo social.

O que se evidenciava eram formas de produção que se desmanchavam em novos processos de conhecimento e participação nesta experiência social. Busca-se um olhar, como o de Diego, para o mar. Em “A Função da Arte”:

 

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar! (GALEANO, 2002, p.15).

 

O resultado é um processo de práticas realizadas em fruição, produção estética coletiva, composição criativa, interpretação de histórias e performances musicais, teatrais, visuais ou corporais, com o mínimo de contextualização e técnica artística. Desse modo, partindo de quem somos de nossas experiências, das nossas histórias, de cada um, aproximando laços, criando teias, envolvendo a família. Esse prisma de dilaceração das emoções e sentimentos de pertença, se faz nas ações pedagógicas de promoção e valorização das artes, em diálogo com a natureza e tecnologias.

O objetivo do trabalho, significava desenvolver a valorização da identidade local, propiciando a interação e o conhecimento das crianças sobre as manifestações e tradições culturais, sobretudo, promovendo o lúdico, poético e imaginário. Para Ferraz e Fusari (2010),a Arte-Educação busca novas metodologias de ensino e aprendizagem.

São práticas éticas e estéticas que se revelam na fruição de histórias, músicas e obras de arte, em interpretação poética e composição de um produto. Para tanto, é necessário sair da escola, para A Pontee. Desse modo, nas descobertas, interesses e vivencias dos estudantes, como meio de partida para a interaçãoe intervenção em sociedade, os princípios democráticos entram em cena.Pois, nossos pensamentos não são espelhos da realidade, contudo, uma forma de traduzir o real. O nosso “ver o mundo” é parte do nosso mundo.  O mundo que conhecemos não existe sem nós; sem nós, o mundo não será mundo.

 

Referências Bibliográficas

 

BRASIL.Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Conselho Nacional da Educação. Câmara Nacional de Educação Básica. Org. Diretoria de Currículos e Educação Integral. Brasília: MEC, SEB, DICEI, 2013.

BRICHTA, Simone. Juventudes em Diálogo: Práticas Educativas Digitais e Tessituras Imagéticas.Dissertação de mestrado. Fortaleza: UFC, 2015.

_________, Simone. UFC, 2015. Na Escola e Na Praça: Poesia e Pancada. Fortaleza: UFC, 2015.

BUORO, Anamelia Bueno. Olhos que pintam: a leitura da imagem e o ensino da arte. São Paulo: Cortez, p. 41, 2002.

 

DUARTE JÚNIOR, João Francisco. Porque arte-educação.6. ed. São Paulo: Papirus, Coleção Ágere, 1991.

 

______________________________.O sentido dos sentidos.Curitiba: Criar, p. 127, 2001.

 

FERRAZ T. C. H. M. & FUSARI R. F. M.Arte na Educação Escolar. São Paulo: Cortez. 1993.

 

FREIRE, Paulo. Educação como prática de Liberdade. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A. 1967.

 

___________.Pedagogia do Oprimido.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997

 

___________.A importância do ato de ler: Em três artigos que se completam. 46.ed. São Paulo: Cortez, 2005.

 

____________.Pedagogia da Autonomia:saberes necessários à prática educativa. 34ª Ed. São Paulo, SP: Editora Paz e Terra, p.12, 2006.

 

GALEANO, Eduardo. O Livro dos abraços. 9ª Ed. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2002. Disponível em: www.anarquista.net/wp-content/uploads/2013/03/O-Livro-dos-Abraços-Eduardo-Galeano.pdf

 

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens:uma história de amor e ódio – São Paulo: Comphania das letras, 32, 2001.

 

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação.Petrópolis: Vozes, p.58, 2002.

_________________. Universos da arte. Edição comemorativa Fayga Ostrower. Rio deJaneiro: Elsevier, p. 04-55, 2004.

 

PILLAR, Analice Dutra. A educação do olhar no ensino das artes.Porto Alegre: Mediação, p.15, 1999.

 

RIBEIRO, Diego Henrique Ribeiro. Grupo Cultural NUC: o dizer e o fazer de uma periferia.In: As mediações da cultura: arte, processo e cidadania. BARROS, José Marcio (Org.). Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2009.

ROSSI, Maria Helena Wagner.Imagens que Falam: leitura da arte na escola. Porto Alegre: Mediação, 2009.

 

SANTANA, José Rogério, In.: ARAÚJO, J. E. et al(Org.),  Tempo, Espaço e Memória da Educação:Pressupostos Teóricos, Metodológicos e Seus Objetos de Estudo. Fortaleza: Edições UFC, p.612-625, 2010.

____________________, Capítulo IV – Metodologias e pedagogia de projetos. Em: Ymiracy N. De Souza POLAK; José Alves DINIZ; José Rogério SANTANA; Mauro Cavalcante PEQUENO; Pedro Ivo Polak JÚNIOR; Helena de Lima M. R. ARAÚJO. (Org.).  Dialogando Sobre Metodologia científica. 1 ed. Fortaleza: Edições UFC. 2011. V. 1, p. 99 -116.

 

 

 

 

 

 

[1]Simone de F. Brichta (direção pedagógica) – mestre em Educação Brasileira – UFC (2013-2015), Psicopedagoga – UFC, Especialista em Gestão Escolar – UFC, Especialista em Educação Fundamentada na Arte – UECE, Pedagoga – PUCPR. Atuou na Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza -CE, entre 2007 e 2012 na coordenação do grupo de arte. Atuou no Portal em Diálogo entre 2012 e 2013. Foi diretora da EM Hilza Diogo Cals entre 2013 e 2016, sendo reconhecida como gestão inovadora e criativa pelo MEC em 2015. Possui artigos acadêmicos publicados em livros e poemas publicados e premiados.

[2]De acordo com Duarte Jr. (1991, p.77): “A arte mantém acesa a imaginação e a utopia – um projeto de futuro”.

[3]A Ponte foi fundada em 2018. Saiba mais em: www.apontee.com.br

[4]Ribeiro (2009), a cultura indica o contexto em que estamos inseridos, nossas referências pelas quais interpretamos as representações compartilhadas por pessoas nos mais diversos espaços sociais, global ou local, que interfere diretamente no cotidiano.

[5]Segundo Morin (2003, p. 261), a estética é uma dimensão que não significa potencialmente ser resultado de uma composição artística: “A estética engloba e supera a arte”.

[6]Santana (2011) aponta que as práticas educativas envolvem o processo de formação e transcendem a instituição, enquanto, as práticas escolares são limitadas aos muros da escola verticalizada.

[7]Tistu é o personagem do livro chamado “O Menino do Dedo Verde”. Obra, de 1957, romance de ficção, escrito pelo historiador francês Maurice Druon.

 

Simone Brichta

Simone Brichta

Diretora Pedagógica - A Ponte - Ateliê Educativo. Mestre em Educação Brasileira - UFC. Especialista em Metodologias do Ensino das Artes - UECE. Especialista em Gestão Escolar - UFC. Psicopedagoga - UFC. Pedagoga - PUCPR.

Leave a Reply

Contato
(41) 99275-8932
(41) 3043-0372
contato@apontee.com.br

Endereço
Rua Carlos Augusto Cornelsen, 252
Bom Retiro/Boa Vista.
Curitiba-PR. CEP 80520-560.

A Ponte - Ateliê Educativo ® 2019